A depressão afeta mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, e as mulheres têm quase o dobro de probabilidades de a sofrer do que os homens. Uma das principais razões? As flutuações hormonais ao longo do ciclo menstrual, que podem influenciar significativamente o humor, a função cognitiva e a regulação emocional. Apesar da sua prevalência, a relação entre a menstruação e a saúde mental continua a ser subdiagnosticada e subtratada, deixando muitas mulheres confusas, sem apoio ou com diagnósticos errados.
Compreender o impacto do ciclo menstrual na saúde mental
O ciclo menstrual é composto por quatro fases:
- Fase menstrual (dias 1 a 5): começa o sangramento, os níveis hormonais estão baixos.
- Fase folicular (dias 6 a 14): os níveis de estrogénio aumentam e, frequentemente, o humor melhora.
- Ovulação (por volta do 14.º dia): pico de estrogénio, possível sensibilidade emocional.
- Fase lútea (dias 15 a 28): a progesterona aumenta, o estrogénio diminui — é nesta altura que muitas mulheres sentem alterações de humor.
Mecanismos hormonais subjacentes às alterações de humor
- Estrogénio aumenta os níveis de serotonina, dopamina e GABA — neurotransmissores que regulam o humor, o sono e a ansiedade.
- A progesterona, especialmente em níveis elevados, pode ter efeitos sedativos e contribuir para a fadiga, a irritabilidade e a instabilidade emocional.
- O cortisol, a hormona do stress, pode perturbar o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HPG), levando a ciclos irregulares e a um agravamento da saúde mental.
PMDD, SPM e PME: Qual é a diferença?
- TDPM - Transtorno disfórico pré-menstrual – transtorno grave do humor na fase lútea; prevalência:cerca de 8% das mulheres menstruadas; sintomas principais: depressão, raiva, pensamentos suicidas.
- SÍMPTOMAS PRÉ-MENSTUAIS - Síndrome Pré-Menstrual – sintomas físicos e emocionais ligeiros a moderados; prevalência: ~ 75% das mulheres menstruadas; sintomas principais: inchaço, irritabilidade, tristeza.
- PME - Exacerbação pré-menstrual – agravamento de perturbações psiquiátricas existentes antes da menstruação; prevalência: comum em mulheres com depressão e perturbação bipolar; sintomas principais: intensificaçãodos sintomas basais.
Últimas novidades da investigação
Estudos recentes salientam a natureza cíclica dos sintomas depressivos e a necessidade de cuidados personalizados:
- Um estudo de 2024 publicado na revista BMC Women’s Health revelou que os sintomas depressivos variam significativamente ao longo do ciclo menstrual, apresentando trajetórias individuais e flutuações diurnas. As avaliações realizadas à tarde revelaram-se as mais fiáveis.
- Um editorial publicado em 2025 na revista *Frontiers in Psychiatry* apelou a uma maior sensibilização e reconhecimento clínico da TDPM e da TEPM, salientando que estas condições continuam a ser pouco estudadas em comparação com a depressão pós-parto.
- Uma investigação publicada na revista IJFMR destaca como o stress crónico e a ansiedade podem perturbar a regularidade menstrual, levando a ciclos mais curtos, amenorreia e um agravamento dos problemas de saúde mental.
Por que é que é fundamental ouvir o nosso corpo?
Muitas mulheres atribuem as alterações emocionais «apenas às hormonas», mas ignorar estes padrões pode atrasar o diagnóstico e agravar os sintomas. Ouvir o próprio corpo significa:
- Acompanhar os sintomas emocionais e físicos ao longo do seu ciclo;
- Perceber quando as alterações hormonais afetam a sua clareza mental;
- Procurar ajuda quando os sintomas interferem na vida quotidiana.
O que pode fazer?
Aqui estão algumas estratégias baseadas em evidências para ajudar a cuidar da sua saúde mental ao longo do seu ciclo:
Acompanha o teu ciclo e o teu estado de espírito
- Utiliza aplicações como o Clue, o Flo ou um simples diário para acompanhar as alterações emocionais. Procura identificar padrões de irritabilidade, tristeza ou ansiedade.
Pratique cuidados pessoais que tenham em conta o ciclo menstrual
- Fase folicular: participar em atividades sociais, definir objetivos;
- Fase lútea: dê prioridade ao descanso, reduza o stress e evite tomar decisões importantes.
Procure ajuda profissional
- Os psiquiatras e os ginecologistas podem colaborar na elaboração de planos de tratamento;
- A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e os ISRS podem ser eficazes no tratamento da TDPM;
- Os tratamentos hormonais (por exemplo, a pílula anticoncepcional) podem ajudar a regular as oscilações de humor.
O estilo de vida é importante
- Coma alimentos ricos em magnésio (verduras de folhas verdes, frutos secos) para reduzir os sintomas da TPM;
- Faça exercício regularmente para aumentar os níveis de endorfinas;
- Dê prioridade à higiene do sono e à redução do stress.
Quebrar o estigma em torno da menstruação e da saúde mental não é apenas um imperativo social — é uma necessidade de saúde pública. Durante demasiado tempo, as alterações de humor de origem hormonal, a depressão relacionada com a menstruação e a psiquiatria reprodutiva têm sido ignoradas, minimizadas ou mal compreendidas. Este silêncio tem levado milhões de mulheres a enfrentar turbulências emocionais sem validação, apoio ou cuidados adequados.
Está na hora de mudar isso.
- Fale abertamente: Normalize as conversas sobre a saúde mental relacionada com a menstruação em casa, na escola, no local de trabalho e nas clínicas. As alterações emocionais associadas ao ciclo são reais, e reconhecê-las é o primeiro passo para a cura.
- Apoiar políticas de saúde inclusivas: Defenda sistemas que reconheçam as necessidades específicas de saúde mental das pessoas menstruadas, incluindo o acesso a terapia adaptada ao ciclo menstrual, exames hormonais e cuidados integrados.
- Promover a psiquiatria reprodutiva: Promova a sua integração nos serviços de saúde mental convencionais. Os profissionais de saúde mental devem receber formação para compreender como as flutuações hormonais afetam o humor, a cognição e as perturbações psiquiátricas.
Ao ouvirmos o nosso corpo, acompanharmos os nossos ciclos e procurarmos ajuda sem vergonha, recuperamos o controlo sobre o nosso bem-estar emocional. E ao falarmos abertamente, abrimos caminho para um futuro em que ninguém ouça «são só hormonas» quando estiver a passar por dificuldades. A saúde mental relacionada com a menstruação não é uma questão marginal — é uma parte vital da saúde das mulheres, dos direitos humanos e do bem-estar global. Vamos tratá-la como tal.
Fontes:
- BMC Women’s Health – Sintomas depressivos relacionados com o ciclo menstrual, https://bmcwomenshealth.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12905-024-03438-9
- Frontiers in Psychiatry – Doenças psiquiátricas ao longo do ciclo menstrual, https://www.iapmd.org/research
- IJFMR – Impacto da saúde mental na regularidade menstrual, https://www.frontiersin.org/journals/pharmacology/articles/10.3389/fphar.2025.1528544/full
Este artigo tem apenas fins educativos. Não constitui aconselhamento médico nem diagnóstico. Se estiver a sentir sintomas de depressão ou sofrimento emocional, consulte um profissional de saúde qualificado.
Foto: cortesia do Pinterest